À minha Diana

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que o teu "Tio" te trouxe. Eras muito mais pequena, uma teenager ainda... tinhas sido abandonada pelos teus primeiros donos, ou eventualmente fugiste, não sabemos ao certo. Também nunca soubemos ao certo a tua idade, pois os teus dentes denunciavam a falta de cuidados por que havias passado, e pareciam os dentes de uma menina com mais idade...

Estávamos no fim do verão de 2005. O veterinário preencheu o teu boletim depois de te consultar com todo o cuidado e "deu-te" uma idade aproximada de 2 anos.

Já trazias nome. Quem te encontrou, mas não podia ficar contigo, chamou-te Diana. Gostavas do nome e respondias por ele, por isso não mudámos. Ficaste Diana. Lady Di, como eu às vezes te chamava, afinal tinhas um pêlo branco como a neve, comprido e fofinho como algodão, e uma juba branca a fazer lembrar uma gola de rainha. Diana estava perfeito, parecias uma senhora em formato bola de pêlo!

Lembro-me como se fosse hoje de quando te vi a primeira vez. Eras desconfiada e rosnavas com aquele ar de quem ía morder. Eu tinha medo de ti. E tu tinhas medo de mim. Tinhas medo de todos. Lembro-me como se fosse hoje de tentar brincar contigo e de me assustar com o teu ladrar. Não percebeste imediatamente que eu queria brincar, pensaste que talvez te pudesse fazer mal. Percebi naquele momento que a tua ainda curta vida não teria sido nada fácil. Percebi que estavas mais assustada do que eu. Percebi que eu tinha de te mostrar que podias confiar em mim.

E confiaste. Em menos de 2 semanas o teu comportamento mudou completamente. Enchias-me de beijos, pulavas quando eu chegava do trabalho. Chamavas-me para ir contigo ao parque ou à praia - o que mais adoravas era correr como louca, como se o mundo fosse acabar! Deixaste de rosnar, na verdade só faltava fazeres "romrom". Não havia qualquer vestígio daquela menina assustada...

Lembro-me como se fosse hoje dos "túneis" que escavavas por debaixo do muro, para poderes ir correr rua fora, pois os muros da casa eram demasiado altos para saltares... escavavas túneis enormes e esgueiravas-te silenciosamente... nunca ías muito longe mas, quando íamos à tua procura, gostavas de jogar "à apanhada" e pulavas de um lado para o outro a provocar. Quando eu me dava por vencida fingia ir embora para casa e lá ías tu, mais atrás, a chamar por mim, mas sabendo que tinhas de voltar para casa...

Aliás, era sempre assim que te convencias a voltar das tuas corridas! Passaste uma temporada em Lisboa com o teu "Tio" e ele levava-te a passear ao Parque das nações. Um dia decidiste treinar para os olímpicos de natação e atiraste-te ao Tejo. Sua louca! Não querias sair! Ele, desesperado, sem saber se se atirava ao rio ou se te convencia a nadar até ao cais, depois de chamar tanto por ti, acabou por fazer isso mesmo... fingiu que se ía embora... não sabemos onde foste ganhar forças, mas como uma leoa trepaste paredão acima, completamente na vertical, e saíste sozinha! 

Lembro-me como se fosse hoje das muitas correrias na praia e, especialmente, daquela vez em que caçaste uma gaivota em pleno voo junto ao mar. Saltaste como um urso atrás do salmão. Caçaste-a. Devoraste-a. E vieste todo o caminho para casa a cuspir penas, como que a exibir um troféu. Estavas profundamente feliz.

Lembro-me como se fosse hoje daquela vez em que decidiste ir roubar a isca aos pescadores. Que nojo! Enfiaste o focinho no saco de lona e fugiste com a isca. Eu fugi também contigo, entre uns mil pedidos de desculpas e uns "larga isso", "não comas isso", "cuidado com os anzóis"... Sua louca! Até parece que não tinhas comida em casa!!

Lembro-me como se fosse hoje daquela vez em que fomos ao parque e que, mais uma vez, quando te tirei a trela correste como numa prova de rally e literalmente levaste tudo à tua frente. Daquele momento em que viste uma menina que dava os primeiros passinhos no meio das folhas de outono e correste em direção a ela... nem tive tempo de acabar de gritar "nãooooooooooo"... viraste-a... querias tanto brincar com ela mas ela era tão pequenina e tu tão grande que simplesmente deu uma cambalhota com o teu impacto. Achei que o pai dela me iria dar o maior raspanete da minha vida - onde já se viu um cão do teu tamanho sem trela?! Ainda por cima num parque onde diariamente brincam tantas crianças?! Mas não. Não ralhou. Na verdade nem deixou a filha chorar. Enquanto a animava dizendo que ela tinha dado uma cambalhota, tu já lambias a menina e ela começava a rir, encantada contigo. Acabámos por ficar ali um bom bocado - tu percebeste o disparate e deitaste-te na relva, junto a ela. Ela acariciava-te ao mesmo tempo que te puxava o pêlo, e tu retribuías com bejinhos! Estavas feliz!

Lembro-me como se fosse hoje do quanto gostavas de roer o nosso calçado. Mordias-nos os pés e saltitavas toda contente a cada dentada! Chegaste a ganhar chinelos para poderes roer à vontade e eles desapareciam "esfanicados" num piscar de olhos!

Lembro-me como se fosse hoje dos ossos de presunto que te oferecia pelo Natal. Sempre tiveste direito a um presente também! Chegavas a fazer sangue na boca tal era a força com que os roías! Nunca chegavas a enterrar nenhum no quintal porque não duravam tempo suficiente para isso!

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que tiveste filhotes. Os filhotes daquele cão preto que todos os dias te fazia serenatas! Todos os dias tentava trepar o muro para ir ter contigo... As semanas de gestação passaram e eu tinha noção de que já estava mais do que na hora dos teus filhotes nascerem, mas nada... um dia bem cedo acordaste-me com o teu choro... Tinhas escavado um buraco gigante na terra (adoravas destruir aquela espécie de jardim!) e enfiaste-te lá dentro. Mas o buraco era fundo e tu estavas demasiado pesada e fraca. Não conseguiste sair... Peguei em ti, uma bola gigante de pêlo, e levei-te à clínica veterinária. Sabia que não estavas bem... Fizeste uma ecografia e análises e as notícias não eram boas... tinhas 9 cãesinhos na barriga e, com o peso, o teu útero virou, por isso não podias ter um parto natural... estavas já com uma infeção, detetada pelas análises, e era necessário fazer uma cesariana de urgência...

O veterinário disse-me que a tua situação era muito delicada. Estavas fraquinha, precisavas de hidratar e fazer antibiótico, mas talvez não resistisses a uma anestesia geral. Deixou-me a sós contigo e disse-me para eu me despedir de ti, porque tinha receio que não ultrapassasses esta... pedi-lhe que te salvasse, não importava como, que fizesse o que fosse preciso, mas que te salvasse! Chorei desesperada agarrada a ti, pedi-te por tudo para te aguentares, que eu estaria a pensar em ti o tempo todo e que estaria à tua espera para te levar para casa com os teus bébés... E tu conseguiste! Começaste até a acordar da anestesia mais cedo até do que era suposto, resististe a tudo com a tua garra de sempre! E eu estive lá o tempo todo à tua espera, como te prometi!

Ficaste essa noite na clínica, a soro e com medicação. Era necessário, para garantir que te restabelecias devidamente. Foi uma noite tão longa essa! Ao final da manhã, quando o veterinário me ligou a dizer que tinhas alta e estavas ótima, "voei" ao teu encontro! Conseguimos trazer 4 dos teus 9 filhotes, as 2 meninas e 2 dos 7 meninos. Uma menina era branquinha como tu, a outra menina e os 2 meninos eram pretos como o pai. Todos diferentes, todos lindos... Perdeste o útero, infelizmente, mas o que importava é que estavam todos bem!

Meti uns dias de férias para cuidar de vocês. Talvez por ser cesariana e não vires os teus filhotes nascer, não os aceitaste muito bem. Estavas cansada, dorida da cirurgia, não lidaste bem com a amamentação. Comprei leite adaptado e biberões e dei biberão aos teus 4 filhotes. Punha-os junto a ti, com um saco de água quente e umas mantinhas, para os tentar manter quentes. De vez em quando fugias e reclamavas quando eles tentavam mamar. Percebi que era doloroso para ti quando punham as patinhas com aquelas unhas tão fininhas na tua barriga, ainda a recuperar de uma cirurgia tão complicada... Infelizmente quando começaste a aceitar o teu papel de mãe os teus filhotes já estavam fraquinhos, apesar de todos os meus esforços, não foi suficiente para os salvar... não resistiram... e tu ficaste "desorientada" durante uns dias, choraste, chamavas por eles... mas, mais uma vez, superaste tudo! Foram necessárias várias semanas, mas voltaste a ser a Diana de sempre!

Lembro-me como se fosse hoje, de uns tempos mais tarde te descobrir 3 caroços no corpo. O teu pêlo era tão espesso e comprido que os escondia. Foi numa sessão de festas que os senti... Mais uma ida ao veterinário - tu não gostavas de lá ir. Nunca te "vendeste" aos biscoitos, já sabias que quando ías ali ou eram vacinas ou algo sério... Foste submetida a mais uma cirurgia, mais uma anestesia geral... desta vez estavas saudável, não havia preocupações de maior, mas era necessário perceber a origem desses "caroços". O veterinário ainda aproveitou a anestesia para te fazer uma destartarização - bem, parte, porque mais uma vez começaste a acordar cedo!

Os nódulos foram para análise mas o resultado foi de encontro ao que desejávamoss. Eram benignos! Nada de preocupações, estavas ótima! Que alívio!

Os anos foram passando. Casei, trouxe-te comigo para uma nova casa, e tive uma filhota que tu adoraste desde o primeiro dia. Davas-me muitos beijinhos quando eu estava grávida - acho que sentias que eu tinha um bébé na barriga, como tu tiveste um dia... Nunca estranhaste a presença dela, aliás, foste sempre tão cuidadosa, tão meiguinha com ela! Ficavas muito ansiosa quando a vias mas apenas até poderes chegar junto dela e cheirá-la. Davas-lhe umas beijocas e ficavas derretida com ela! Nunca reclamaste das suas "festas" que te puxavam o pêlo, sempre a deixaste fazer o que queria de ti. E apesar do teu tamanho, nunca a "viraste" como era nosso receio! Conseguiste sempre controlar essa loucura por ela e deitavas-te no chão à espera das suas carícias...

Lembro-me com o se fosse hoje do quanto gostavas de maçãs! Não era preciso cortar nem descascar, tu adoravas comer as maçãs mesmo assim! Maçãs, pêras, ameixas e até bananas. Adoravas! Mas o que mais gostavas era de pão! Nada te deixava mais feliz do que um pedaço de pão! Ganhavas sempre um pouco do meu pequeno-almoço, pois às 06h30 da manhã chamavas-me insistentemente até eu te fazer a vontade! Foi assim durante anos... Aliás, quando íamos ao parque gostavas de te atirar ao lago e roubar o pão aos patos! Houve uma vez em que uma senhora te quis bater (ela que se atrevesse a tocar-te!) pensando que ías atrás dos patos, mas tu querias era o pão deles!!

Lembro-me como se fosse hoje do medo que tinhas das trovoadas... Ficavas tão assustada... choravas, ladravas, viravas tudo à tua volta! Um dia enfiaste a cabeça no gradeamento do portão e não conseguiste tirá-la! Resultado?! Fizeste tanta força que arrancaste o portão!! A partir daí passaste a ficar fechada em noites de trovoada!

Nos últimos tempos, o que mais gostavas era que a M. fosse passear à rua contigo. A bébé que "viste nascer" tem quase 5 anos e já te levava pela trela. Nunca lhe fizeste "puxões" como fazias a mim! Eu acho que sabias que ela não tinha força para resistir a um puxão desses, então ias calmamente ao lado dela, feliz da vida, com a tua pequena amiga!

Mas os nódulos apoderaram-se de ti nos últimos tempos. Estavas cheia deles, ao início escondidos sob o teu "pêlo de ovelha", como costumávamos brincar, mas ultimamente, tão grandes, que já eram visíveis o tempo todo. Deixaste de gostar de tomar banho, porque começaram a ser dolorosos. Às vezes queixavas-te muito, outros dias andavas melhor. E apareceu uma tosse chata, que te incomodava de noite e não te deixava descansar... ultimamente eu já não conseguia dormir quando te ouvia assim mais aflita... pensava para mim que era um sinal que já não ías estar muito mais tempo connosco...

Já ouvias mal e a tua visão também diminuiu bastante. Tinhas catarata senil. Mas o teu olfato estava apurado como antes, porque reconhecias toda a gente, mesmo de longe. Reconheceste sempre as visitas, mesmo do outro lado da casa!

Lembro-me como se fosse hoje do teu último passeio. E na verdade foi há poucos dias... Fomos contigo à mata, tiramos-te a trela como sempre fizemos, mas tu não correste. Mantiveste-te junto a nós, como se continuasses de trela. Só quando a M. começou a correr e a chamar por ti é que aceleraste um bocadinho, mas ficaste cansada rapidamente.

O passeio foi muito mais curto que antes. Já não conseguias levantar bem as patinhas, arrastavas as tuas "pantufas brancas" no chão, levantando as folhas pelo caminho. Pela primeira vez paraste para descansar... nunca tinhas feito isso. Precisavas recuperar para voltar para casa...

A semana passada enchi-me de coragem para te levar ao veterinário. Andava há semanas a mentalizar-me de que estava a chegar "a tua viagem". Não queria aceitar, evitei tanto quanto pude, apesar de saber que era mesmo assim. Mas tinha esperança que melhorasses, que vencesses até a tua avançada idade, como se fosse possível. Mas aquele foi o segundo dia em que não quiseste comer...

Ouvi o que não queria ouvir... mas tinha de fazer a inevitável pergunta "e se fosse sua?!". Tive a resposta que não queria ter, aquela que eu tanto temia e que tinha evitado ouvir... ficámos uns minutos a sós para nos despedirmos, dei-te tantos beijos, deste-me tantos beijos a mim... Acalmei-me e acalmei-te. Ficaste serena, como se também soubesses e aceitasses. Deste-me um último beijo e depois um último suspiro. E eu chorei que nem um bébé...

A M. perguntou-me nessa noite qual era a tua estrela. Pediu-me para ir à rua ver. Perguntou-me se a tua estrela estava ao lado da do Bisa. Disse-lhe que a tua estrela era branca, peluda e muito fofinha, mas que não estava naquele céu. E ela respondeu baixinho: "está no nosso coração".  ❤

Obrigada por "nos teres escolhido" para tua família. Obrigada por confiares em mim. Foste a melhor amiga de 4 patas que eu poderia ter tido, Lady Di. A minha cãopessoa. ❤