A Estrela que não morava no Céu

9 de Junho de 2016

O dia da notícia que não queria receber… nunca nos sentimos verdadeiramente preparados para notícias destas…

Foi há um ano e parece que foi ontem. Porque parece que ainda ontem o Bisa jogava à bola com a M., com uma “genica” admirável para quem havia já comemorado o 92º aniversário. Momentos tão bons (como os deste post) são eternos no nosso coração e na nossa memória e o nosso coração teima que nunca, nunca, nunca irão deixar de existir…

Mas quando a notícia chegou, e após o choque inicial da dor, do desespero até, do não querer nem conseguir acreditar, veio um ponto de interrogação gigante... “Como vou explicar à M.?”

Ilustração de Filipa Silvério, in https://industriacriativa.pt/portfolio/6080/a-estrela-que-nao-morava-no-ceu

Ilustração de Filipa Silvério, in https://industriacriativa.pt/portfolio/6080/a-estrela-que-nao-morava-no-ceu

Durante dois dias chorei às escondidas, a muito custo evitei que ela me visse naquele desespero. O desespero da perda, mas também o de não saber como contar à M., de forma que ela compreendesse mas que não mexesse demasiado com ela. Sempre ouvi dizer que as crianças lidam muito melhor com a perda do que os adultos, mas, como Mãe, estava preocupadíssima com aquela que poderia ser a sua reação…

No dia 12 contei-lhe, a medo. Expliquei-lhe que o Bisa tinha ido morar numa estrela e que estaria sempre a vê-la e a ouvi-la a ela, ainda que ela não o pudesse ver ou ouvir. Ela podia conversar com ele sempre que desejasse, mas não conseguiria ouvir a voz dele... Ela percebeu o que eu quis dizer, e chorou no meu colo…

À noite pediu-me para ir à rua ver as estrelas. Perguntou-me qual era a estrela do Bisa. Disse-lhe que era “a mais brilhante, a mais bonita e a maior de todas”. Nessa noite fez um desenho e fez-me prometer que eu daria a um passarinho para lhe entregar (e eu entreguei!).

Mas na noite seguinte, e na outra, e na outra, ela pedia-me sempre para ir à rua ver as estrelas e para lhe dizer qual era a estrela do Bisa. Sabia dentro de mim que não podia “alimentar” aquela necessidade de ver as estrelas, dando-lhe uma explicação melhor, mas não sabia como o fazer. E o problema surgiu quando, umas noites depois, o céu estava encoberto e não se avistava uma única estrela. Ficou triste por não conseguir ver o Bisa, apesar de eu lhe garantir que ele estava a vê-la a ela e que estava feliz por ela pensar nele…

Nessa altura “mergulhei” na internet em busca de uma explicação que me parecesse mais adequada à idade dela. Já havia falado com a família, com amigas que trabalham com crianças, com outras mães, mas nenhuma sugestão sossegou o meu coração. Não podia falar em sonos eternos, ela poderia ter medo de ir dormir… não queria falar em religião, porque iria confundi-la ainda mais… queria contar-lhe a verdade, mas de uma forma bonita e delicada, que a tranquilizasse… não podia ficar por aquela simples explicação de que se tornara uma estrela e que agora morava no céu…

E foi então que encontrei um livro cujo nome prendeu toda a minha atenção: “A Estrela que não morava no Céu”. Encontrei comentários acerca do livro, sabia que era exatamente o que procurava, mas não o encontrei à venda. Procurei então pelo nome da autora - Cristele Matias - e encontrei a sua página no facebook. Curiosamente, a Cristele vive e trabalha na zona de Leiria, e trabalha precisamente com crianças. E foi quando uma das crianças que acompanhava lhe perguntou "o que é que fazemos quando morre alguém de quem gostamos?" que ela começou a escrever o livro de que agora vos falo... também ela passava, na altura, por um momento difícil como este...

Ilustração de Filipa Silvério, in https://industriacriativa.pt/portfolio/6080/a-estrela-que-nao-morava-no-ceu

Ilustração de Filipa Silvério, in https://industriacriativa.pt/portfolio/6080/a-estrela-que-nao-morava-no-ceu

Deixei-lhe um comentário na página perguntando como poderia comprar o livro, ao qual gentilmente me respondeu por mensagem. Expliquei-lhe o porquê de procurar aquele livro em particular e ela enviou-nos o livro com uma linda dedicatória à M. e ao Bisa…

No dia quem que recebemos o livro contei logo a sua história à M. Ouviu tudo com muita atenção, sempre agarradinha a mim… no final perguntei-lhe:

- “Percebeste a história, amor?”

- “Sim, percebi” - respondeu ela.

- “Sabes onde está a estrela onde mora o Bisa?” - insisti.

- “Está no meu coração” - disse, sorrindo.

E depois disto foi brincar, como se nada se tivesse passado. Voltou a ficar muito tranquila, ela e eu também. Fala no Bisa com naturalidade, do que ele gostava, de momentos que passou com ele, mas sempre, sempre, com um sorriso.

Um mês depois de termos lido esta história, foi a vez da nossa Diana partir (contei-vos neste post). Quando contei à M., a primeira pergunta que me fez foi "Mãe, a Diana foi ter com o Bisa? A estrela dela está ao lado da do bisa?" Respondi-lhe que sim, que naquele preciso momento a Diana estava encostadinha à perna do Bisa, e que ele lhe estava a fazer muitas festinhas, e que estavam os dois muitos felizes. Disse-lhe que a estrela dela era branca e muito peluda e fofinha, mas que não estava no céu. E ela disse sorrindo "está no meu coração".

 

Não vos vou contar a história deste livro, mas digo-vos que é, sem dúvida alguma, uma forma muito doce de explicar às crianças (e a nós adultos também) onde moram aqueles que amamos e que vemos partir… É um livro muito bonito, muito emotivo e que traz muita serenidade ao nosso coração.

Muito obrigada Cristele. Nunca conseguirei colocar em palavras o tanto que este livro significa para nós. ❤

Ilustração de Filipa Silvério, in https://industriacriativa.pt/portfolio/6080/a-estrela-que-nao-morava-no-ceu

Ilustração de Filipa Silvério, in https://industriacriativa.pt/portfolio/6080/a-estrela-que-nao-morava-no-ceu

Podem saber mais sobre o livro na página oficial no facebook.

Atualmente o livro está à venda nas principais livrarias do país (em lojas e online).

Observ.: Este post representa sentimentos genuínos e uma opinião sincera. Não representa, de forma alguma, qualquer parceria com o livro em questão.